sexta-feira, 5 de março de 2010

Estória de Cinderela na linga de Sôncent

(ou como contar a história da Cinderela às crianças de São Vicente para que não nos chamem gente bedje)

Já tem um data de time, tinha um eskurinha que sê pai já tinka rankód pa nha merkinha, entom el tive ke fcka ta môra ma kel chunga de sê madrasta e kesh sacana de sês irmã de criação (filhas de sê madrasta).

Cinderela (Cindy p'á maltas), tava vive móda se el tava estóde na djelz, tude dia na lómba e sem time pa mandá uns mail pa gang.

Ke tude es trapaiada na sê vida, tude o ke Cindy kria era fgi d'casa e ranki, mod sê madrasta tava tral merda. Entom um dia Cindy fcka ta sabe que maltas d'zona tava ta organiza um fistinha de kel bom. El fcka logue atente na muve, ma kesh filha de sê madrasta bai logue te cortal eskema.

Ai, el fcka flipóde, ma depôs de andá um time desanimóde, sômá um fada madrinha que dal speed num rupinha fashion e konde el pestil, el fcka ta parce kum suco +, prope sexy.

Sô ke kel fada dzel k'el podia fcka na festa sô até meia-note. Bzôte tita tcheká eskéma?!!!! Baby curty ideia e el desmarcá logue logue pa fistinha, chei de speed.

Konde el entra na fistinha, el tchecá um tipzat chei de paus, um moss dekel bom, ke ba logue ta metel frase. Entom Cindy ma brodix começá um góma e eje curti ól naite long, até k'el uvi kesh 12 badalada de meia-note e el dá kel tipzat um descontra pa desaparce na fmaça.

Brodix fcka completamente atoada konde baby ranka sem konde de nada, e el ranka trás del logue, ma infelizmente el incontra foi um sapatim de kel kuzinha na camin.

Na dia seguinte, tipzat mete na se diabom de córre e el anda de brock em brock ta espiá kem ke kel sapote tava sirvi. Chei de sorte, e depôs de esprimenta kel sapóte num data de Kamak de amdjer, el incontra kel doida, pa azar de um data de metrera ke já tava k'oi na kel broxi. E assim eje vive fliz pa psuda.

TheEnd

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Da estrada da Baía à Licenciatura de Música da UNI-CV

por Tambla

Sem me reter na publicidade precária e partidária em que se converteu o nosso festival de música da Baía das Gatas, hoje completamente sem nenhuma proposta de pensamento cultural e muito menos de sentimento artístico, observo o pobre cartaz do evento e vejo enumerados nomes consideráveis da música verdiana – e a tamanha diferença de “carácter” entre os músicos que iniciaram esta celebração e os actuais. Embora possamos encontrar nomes que estejam nestas duas pontas, os traços assumiram hoje um outro contorno.

Se nas décadas passadas o músico de Cabo Verde se apresentava como uma apaziguador dos sofrimentos e das desgraças, um animador dos jogos sociais e quotidianos, mensageiro da caminhada grande de nosso povo, farol iluminado do “destino crioulo” pouco serenado; na actualidade, esse semblante é distorcido vigorosamente a favor de um profissional pouco artista e de uma procura voraz, circunscrita ao amadorismo herdado de outras gerações.

Ora vejamos: quando B. Léza, nos finais dos anos 30, dirige a participação cabo-verdiana na Exposição do Mundo Português, leva-nos a pensar não só nas suas qualidades artísticas e musicais, mas também nas suas capacidades de discurso e de orientar, de organizar, de liderar, e de produzir. Capacidades próprias das exigências de realização ou participação em eventos dessa natureza. Isso também ajuda-nos a entender o porquê do destaque conseguido na sua época, e quais as qualidades que levaram-no a estar um passo à frente do seu tempo. Vejam vocês, hoje, até onde chegou o trabalho musical deste senhor.

As qualidades do actual músico verdiano direccionam-se para o profissionalismo, ainda de modelo bastante tremido. Tatuado com uma indisciplina global na realização de sua actividade, a maioria encontra-se no lamento de um sentimento que, por vezes, penetra perigosamente na sua obra poética, deixando marcas estranhas. Paralelo a essa tattoo, está marcado na sua carne a ausência de um discurso que sustente o seu trabalho e a sua actuação sócio-político-educativa.

Não queremos generalizar e nem queremos santificar quem quer que seja, no entanto observemos o seguinte: considerando a proposta estética do músico Hernâni Almeida, sentimos que está num ponto inicial bastante prometedor e de largo caminho. Agora vejamos currículo do moço em termos de produção e a disciplina global da sua actuação. Sentimos um diferencial forte em relação aos colegas desse tempo tremido. Ou então, resgatemos a entrevista do Paulino Vieira no ASemana on-line, e confirmemos a coerência e a solidez do seu discurso versus a sua atitude alegadamente “transviada” e de pouca compreensão.A impossibilidade de, para além de outras qualidades, acasalar o discurso com a disciplina global, coloca o músico do nosso tempo, nesse tempo tremido, uma espécie de precipitação verdiana, a mais estúpidas das incertezas.

Foi com luz, porque havia brilho nos olhos daquele pessoal, que ouvi a proposta de licenciatura em música da UNI-CV, nas instalações do ISE no Mindelo. O que se quer, pelo menos foi o exposto, é desenvolver uma proposta cujas bases se encontram exactamente nas estruturas empíricas e líricas da nossa música. A acontecer, vamos fazer fé e figa canhota. A arte, neste caso a música, terá a assim a oportunidade de agitar uma tal lanterna nas linhas da frente do estado tremido do percurso actual do nosso desenvolvimento como nação-gente.

É claro que, neste início, mantém-se suspensa a poeira das confusões e de colocações inoportunas. Avante com esta “carga ao lombo” rapazes. Ousar e arriscar estão escassos no meio de tanta tremura. Serão compensados ao meio deste caminho ainda não asfaltado. O meu percurso detém-se na estrada bela da Baía das Gatas em pleno festival, a porta de saída dos que passaram pela música da UNI-CV.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Um povo estranho...

Notas soltas sobre o documentário "Some Kind of Funny Porto Rican?", da cabo-verdiana Claire Andrade Watkins, que deve estrear a 5 de Julho, na Praia, e dois dias depois no Mindelo.

por Mdias


1. “Some Kind of Funny Porto Rican?”, documentário de Claire Andrade-Watkins, é o primeiro grande filme sobre a emigração cabo-verdiana para a América. O destino secular de berdianos empurrados para uma América que lhes sorria oportunidades mil. Em solo estranho, agregam-se em comunidade e reconstroem suas vidas em Fox Point, na zona da Grande Inglaterra. Quando a comunidade chega à terceira geração de emigrantes, é forçada a abandonar as suas casas em Fox Point para dar passagem a uma rodovia. O documentário de Claire aborda, de forma contundente, esse processo doloroso que destrói laços, não fosse o cabo-verdiano o povo com maior sentido de pertença que eu conheço.

2. O filme é o percurso da sua família, e de tantas outras, que fincaram pé em Fox Point, ao longo de três gerações, e que assistiram ao seu desaparecimento. Hoje, a zona chama-se Lower East Side, para o desgosto dos seus antigos moradores. É a própria história de cada um dos emigrantes que abandonaram Cabo Verde em busca de mais e melhor para si e os seus. Sempre condicionados por factores que lhes escapa do controlo. Se na primeira leva, o que os expulsa é a seca, a miséria e a repressão, agora é a construção de uma rodovia. E assim, a comunidade é fragmentada.

3. Claire Andrade-Watkins conta esta história na primeira pessoa, lançando mão de suas memórias de infância e dos testemunhos dos antigos moradores de Fox Point, entre os quais seus parentes e amigos de seus pais e avós. Além de fotografias e filmes, fruto de uma pesquisa alargada no tempo. O filme é um documento histórico sobre a emigração cabo-verdiana, cuja história ainda está por ser escrita. Daí o contributo inestimável de Claire para a releitura de um percurso cujo enredo se vai perdendo nas malhas do tempo.

4. Fox Point lembra-me Mesquita, no interior do Rio de Janeiro. Conheci essa comunidade de emigrantes cabo-verdianos quando fiz a faculdade, no fim dos anos noventa do século passado. Nunca me esqueço da emoção que senti ao entrar em algumas casas dos meus patrícios, na sua maioria originários de São Nicolau e Santo Antão. As casas eram arrumadas tal e qual a minha avó fazia: muitas fotografias de familiares e de Cabo Verde, a mesinha no centro da sala, com as flores de plástico numa jarra, as rendas a decorar os sofás, o cheiro de café trançado com o de cuscuz quente, o grito de crianças no quintal, nós a conversar em Cabo-verdiano. A alegria com que nos receberam, lágrimas nos olhos dos velhos, confessando uma saudade dorida que me comoveu, numa dor que ainda hoje consigo sentir.

5. “Some Kind…” lembra-me de Luís Romano, um berdiano da gema, alma grande de tanta saudade. Da cerimónia e grande generosidade com que nos recebeu, a mim, ao Tambla e ao Boss, na visita que lhe fizemos em Natal, no Brasil, em 2007. À nossa espera, sentado em sua cadeira de rodas, com uma garrafa de grogue de Santo Antão, guardada por anos, à espera que um patrício viesse brindar com ele.