sexta-feira, 6 de junho de 2008

Um povo estranho...

Notas soltas sobre o documentário "Some Kind of Funny Porto Rican?", da cabo-verdiana Claire Andrade Watkins, que deve estrear a 5 de Julho, na Praia, e dois dias depois no Mindelo.

por Mdias


1. “Some Kind of Funny Porto Rican?”, documentário de Claire Andrade-Watkins, é o primeiro grande filme sobre a emigração cabo-verdiana para a América. O destino secular de berdianos empurrados para uma América que lhes sorria oportunidades mil. Em solo estranho, agregam-se em comunidade e reconstroem suas vidas em Fox Point, na zona da Grande Inglaterra. Quando a comunidade chega à terceira geração de emigrantes, é forçada a abandonar as suas casas em Fox Point para dar passagem a uma rodovia. O documentário de Claire aborda, de forma contundente, esse processo doloroso que destrói laços, não fosse o cabo-verdiano o povo com maior sentido de pertença que eu conheço.

2. O filme é o percurso da sua família, e de tantas outras, que fincaram pé em Fox Point, ao longo de três gerações, e que assistiram ao seu desaparecimento. Hoje, a zona chama-se Lower East Side, para o desgosto dos seus antigos moradores. É a própria história de cada um dos emigrantes que abandonaram Cabo Verde em busca de mais e melhor para si e os seus. Sempre condicionados por factores que lhes escapa do controlo. Se na primeira leva, o que os expulsa é a seca, a miséria e a repressão, agora é a construção de uma rodovia. E assim, a comunidade é fragmentada.

3. Claire Andrade-Watkins conta esta história na primeira pessoa, lançando mão de suas memórias de infância e dos testemunhos dos antigos moradores de Fox Point, entre os quais seus parentes e amigos de seus pais e avós. Além de fotografias e filmes, fruto de uma pesquisa alargada no tempo. O filme é um documento histórico sobre a emigração cabo-verdiana, cuja história ainda está por ser escrita. Daí o contributo inestimável de Claire para a releitura de um percurso cujo enredo se vai perdendo nas malhas do tempo.

4. Fox Point lembra-me Mesquita, no interior do Rio de Janeiro. Conheci essa comunidade de emigrantes cabo-verdianos quando fiz a faculdade, no fim dos anos noventa do século passado. Nunca me esqueço da emoção que senti ao entrar em algumas casas dos meus patrícios, na sua maioria originários de São Nicolau e Santo Antão. As casas eram arrumadas tal e qual a minha avó fazia: muitas fotografias de familiares e de Cabo Verde, a mesinha no centro da sala, com as flores de plástico numa jarra, as rendas a decorar os sofás, o cheiro de café trançado com o de cuscuz quente, o grito de crianças no quintal, nós a conversar em Cabo-verdiano. A alegria com que nos receberam, lágrimas nos olhos dos velhos, confessando uma saudade dorida que me comoveu, numa dor que ainda hoje consigo sentir.

5. “Some Kind…” lembra-me de Luís Romano, um berdiano da gema, alma grande de tanta saudade. Da cerimónia e grande generosidade com que nos recebeu, a mim, ao Tambla e ao Boss, na visita que lhe fizemos em Natal, no Brasil, em 2007. À nossa espera, sentado em sua cadeira de rodas, com uma garrafa de grogue de Santo Antão, guardada por anos, à espera que um patrício viesse brindar com ele.